segunda-feira, 18 de março de 2013

Eu quero desconstruir o concreto dos teus dias

Eu quero enquadrar meus sonhos numa tela.
Eu quero uma aquarela pra pintar o sete.
Eu quero me perder e me achar por aí.
Entrequadrar os 33 graus deste dia tão belo.

Eu quero contemplar esse céu tão puro.
Onde as nuvens mesclam-se ao azul mais tênue.
Eu só quero três poderes: ver, ouvir e sentir o urbano tão verde destas terras.
Onde muitos são os poderes; poucas,as funcionalidades.

Eu quero atravessar ziguezagueando as seis faixas desse Eixão de meu Deus,para sentir a adrenalina correr, o coração pulular, entender o que é Vida.
Eu quero asas para atingir o cume e de cima olhar a perfeita sintonia desse lugar.
Eu quero voar longe e permanecer aqui.

Eu quero transcrever em palavras este céu de Monet.
Tão impressionante, quanto impressionista.
Eu quero pintar em versos essa epifania que me invade e me evade em olhos que sorriem.




domingo, 17 de março de 2013

Endomingar

O cheiro do bolo de cenoura não se espalhou pela casa.
Não há o calor de outrora.
As ruas no domingo estão vazias.
Tão vazias quanto eu sem você.

Hoje eu acordei endomingada.

Falta o Hitchcock na minha tv, falta eu e você.
Falta o seu lençol, os tais sóis dos seus abraços.

Eu quero endomingar com você

Ver um filme.
Ou não.
Dormir com sua voz entoando Chico aos meus ouvidos.
Ou não.
Acordar, talvez.
Com você fungando meu pescoço.

É domingo, meu bem, vem comigo.

Visto aquele vestido florido outra vez.
E então, você segura a minha mão.
Segura firme, ao som do baião.
Em rodopios incessantes, tomemos o salão.
Me vê um pé-de-moleque, uma paçoca e uma canjica.
Nosso amor é fogueira de noite de São João.

"E no terreiro, o seu olhar, que incendiou meu coração!"


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Acoberta

É na madrugada que verdadeiramente se sente. 
A luz do dia, que torna tudo tão perceptível e julgável, se foi. 
O pudor, e não só ele, também o falso moralismo, se foi. 
" - Sai da janela, Dona Aurélia! Cuida do teu feijão."
Se foram os que apontam, os que dispensam a todos seus preconceitos e impõem suas opiniões. 
O silêncio não julga, acoberta, por baixo das cobertas, os amantes. 
Que são reais, são passionais. 
Instintivos seres humanos. 
Na madrugada, não se ousa dissimular. 
Ou se é ou não. 

O silêncio à coerção. 

A poesia pede passagem


Eu nasci em versos. Em versos, me criei.
Se parar de versar, ao inverso ficarei.
Passa a moça bonita na rua, passa o ônibus, o cobrador,
Passa o senhor com seus sessenta anos, a velhinha e seu tricô.
Do diverso faço verso, uniVERSOS fundei.  
Assisto da calçada.
Eles passarão, a poesia passarinho.
Voando, vagando, cantarolando em vozes de cantor.
Planando pelo horizonte, desbaratinando por aí...

sábado, 12 de janeiro de 2013

Aí, ai de mim

Aí éramos nós.
A Sós.
Sóis calorosos que se despedem formosamente em trajes de pôr-do-sol.
Aí éreis vós.
Vozes que trocam juras de amor no ínfimo espaço de um abraço, hoje concreto.
Aí eram eles.
Aqueles ali, sim, a vagar em um barquinho sem destino, sem pretensão.
Aí era o todo e ele, a parte que ressignificava o monocromático, imprimia cor à monotonia.

Seu marinheiro, seja certeiro, ancore nele e em seus verdes olhos o meu coração.
Eu quero sóis em forma de abraço, que me aqueçam da frieza desse mundo são. 
                    E quem não? 

Aí, ai de mim
Mais um amor de verão
                    que se fez de inverno, de outono e primaverar-se-á nos verões vindouros.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Abate

Seu João foi ao açougue.
Parou, olhou, admirou a qualidade da carne, sorriu de canto de boca.
Quantas ideias não lhe vieram!
"5 kg de maminha, 4 de picanha, faz favor."
Chamou os amigos, fez-se churrasco.
Comprou umas geladas, preparou a farofa, o vinagrete, o pãozinho de alho.
Reuniu a turma, serviu de mal passada a bem passada.
Todos fartaram-se, abusaram de Juliana como sem igual.

Olhar não arranca pedaço, mas constrange.

Chegará o dia em que mulheres andarão tranquilas às ruas, sem temerem as violentas e desrespeitosas cantadas de que são alvo.
Chegará o dia em que mulheres não apressarão o passo temerosas de estupros.

Quantas não são as mulheres feitas dia a dia de prato principal? 







quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tempestade

Fui fechar a janela, a chuva me atraiu. Há tempos não cheirava suas densas gotas, tampouco as provava. E fiquei intacta, hipnotizou-me seu cheiro. O magnetismo da chuva que evade pela madrugada há quase nada se compara. Eu tentava, não conseguia, era o céu que chorava por mim. E lavava a sarjeta onde o imundo estaria. Ali, à margem, alimentando-se dos restos. Parasitando a sociedade, camuflando-se ao lixo. Perfeito mimetismo! Mas talvez, da tempestade, o que mais me fizesse falta fosse o vento. Ah, o vento! Ele uiva, grita aquilo que meu interior tão racional não externaria. O vento que puxa, faz plainar num simples abrir dos braços. E então vem o gosto, estendo a mão, recolho uma amostra dos céus, delicia-me a sede de justiça. Embebedo-me. Fecho a janela. A sarjeta parece mais limpa; o asfalto, ainda mais negro; a rua, suscetível a deslizes dos passantes. Ergo-me. Vai passar. Minh'alma revigora-se.