quarta-feira, 12 de junho de 2013

Hoje não te escrevi

Hoje eu te escreveria, como o fazia há tantos dias. 
Mas de hoje em diante não escrevo mais. 
Não por me faltar a vontade, me falta o tempo. 
Tem tempo que o tempo, truculento, me ata. 
E me amordaça e me hostiliza e 
Toma o meu corpo como engrenagem. 
"Segunda à sexta tem serviço, vê se trabalha com afinco pra produtividade cair na conta no fim do mês"
"Sossega! Que esse mês ainda ganho hora extra pra pagar as "prestação"." 
Falaram que tempo era dinheiro e as cifras, dissimuladas, se fingiram libertação. 
Quem se presta, até na moléstia, a disciplinar o corpo à exaustão? 
Quão produtivo é isso de repetir a mesmice? Pensa!
O que move não é sonho. É cafeína, taurina e alienação. 
E o operário repete: rotula a garrafa, o biscoito, os homens pelo que têm. 
Falta tempo, sobra temporal. Restam segundos para amar. 
E olhe lá! 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Bolsa de mulher

Excesso de bagagem!
Tem perfume, pasta e escova de dente.
Tem absorvente.
Tem o pingente da proteção, o brinco de pérolas, a passagem do ônibus,
O assento do avião.
Escolho a janela!
Tem saldo de banco, tem extrato de saudades, tem ingresso de cinema
Daquele filme que nem se vê.
Tem moedas soltas das mais valiosas!
Dá pra jogá-las no poço dos desejos e pedir pra te ter.

domingo, 31 de março de 2013

Desquite

É sempre no passado a união.
É sempre no presente a intersecção.
É sempre no futuro o não.
Não pertence, não contém, não convém.
Separação.
O vazio nesse sempre é sempre subconjunto de toda a multidão.


domingo, 24 de março de 2013

Smart phone, dumb life


Venha turn on seu phone.
Saiba que ele é very smart.
Na hora do rush, o 3G dá um up.

A sua interface é hightech,
Num touch, eu checo as novidades.
Contato a friendzone,
Confirmo presença no happy hour.

Se vem face to face, ignoro.
Falar é tão last week. Olho no olho tá pra lá de Marrakesh.
Mando adicionar no Face, confirmo friend request.
No chat, viro BFF.

Eu só vivo online.
Se perco a conexão,
Put a keep are you,
Turn off a social life.

sábado, 23 de março de 2013

Se métrica


Em uma tentativa tola quis ter uma vida equilibrada e simétrica e acabou tornando a poesia sem métrica.
Deixe o poeta amar até a última lágrima, o palhaço sorrir até chorar, a criança pular até cair.
Deixe Nero incendiar, deixe a chama subir e te consumir.
Não, não pare por medo de ir.
E quando enfim o caminho descobrir, dane-se tudo.
Viva rimas e versos brancos.
A vida tem lá seus encantos! 

Ponto Ação


Tudo começou com uma pergunta e o mundo foi sendo construído.
     !          Houve quem exclamasse,
.           Quem apontasse,
    ...         Quem continuasse.


Eu assisto de longe e faço parte.
Sou criatura, criação, escritor,
Ator e público de  um
 Instante que persiste
 n
 s
 i
 s
 t
 em  não ter f i m

Decifra-me ou devoro-te

Hoje me falta a pena. 
Não a do sentir; a do firmar.
E me sobra a pena de quem ainda não me lerá.